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BALEIA À VISTA !

06/07/2010

Marcelo Tardelli Rodrigues

As baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) são cetáceos cosmopolitas, encontrados em todos os mares e oceanos do mundo. Como a maioria das grandes baleias, as jubartes realizam grandes migrações anuais de vários milhares de quilômetros, concentrando-se no verão em áreas de alimentação junto aos pólos, e no inverno e primavera em áreas de reprodução e cria de filhotes em regiões tropicais. Acredita-se que durante todo o período de migração a espécie não se alimente. Esse fato torna-se possível, graças à espessa e longa camada de gordura que essas baleias possuem sob a pele e que vão consumindo através de absorção, ao longo de toda sua área de migração.

Essa camada de gordura é adquirida pelas baleias durante o verão, quando permanecem de dois a três meses na Antártida, alimentando-se basicamente de grandes quantidades de Krill (pequenos crustáceos) e de pequenos peixes, acumulando desta forma, uma grossa camada de gordura para a longa migração que terão de realizar. Quando o inverno chega, a espécie migra ao longo da costa para águas tropicais e subtropicais, para reproduzir e criar seus filhotes.

Localizado a 66 km da cidade de Caravelas, no sul da Bahia, o Arquipélago de Abrolhos representa a principal área de reprodução e cria de baleias-jubarte no Oceano Atlântico Sul Ocidental. As cinco ilhas que formam o Arquipélago funcionam como um verdadeiro local seguro para a espécie, oferecendo águas claras (em determinadas épocas do ano a visibilidade das águas pode chegar a incríveis 15 m) e rasas, além de quentes, com temperaturas variando entre 24ºC e 28ºC graus. Todos os anos, aproximadamente 1.300 baleias-jubarte migram para o Arquipélago de Abrolhos, entre os meses de junho a novembro, e lá permanecem nos meses de setembro, outubro e novembro, com o objetivo de reproduzir e crias seus filhotes. É muito comum nesse período observar um grande número de comportamentos, como batidas de nadadeiras peitorais, batidas de nadadeira caudal e comportamentos aéreos, como saltos parciais e saltos totais, além daqueles diretamente relacionados com a corte e com a reprodução. Durante a permanência da espécie em Abrolhos, no período de acasalamento e de disputas, um grande número de grupos de baleias se reúne temporariamente na região. Os machos que geralmente são tranqüilos nas áreas de alimentação junto aos pólos ficam extremamente agressivos nas áreas de reprodução e cria de filhotes, nessa época do ano. Para os machos, o objetivo principal e final desses encontros e eventos é sempre conseguir conquistar as fêmeas e, consequentemente, conseguir acasalar.

As jubartes também são conhecidas como baleias cantoras, pois apresentam uma complexa vocalização, ainda pouco conhecida, estudada e compreendida pela ciência. Esses sons produzidos e emitidos constituem verdadeiras canções, que são formadas e compostas por diversas frases que se repetem durante várias horas seguidas. Esse canto acontece apenas no período reprodutivo nas áreas de reprodução e cria de filhotes, e apenas os machos o executam. Em diversas áreas de reprodução e cria dessas baleias ao redor do mundo, pesquisas comprovaram que o canto da espécie sofre pequenas variações em sua composição, que só são percebidas quando ouvidas ano após ano. Nas áreas de reprodução e cria de filhotes, a cada inverno, as baleias aparentemente acrescentam uma nova frase ao seu canto. No final de cinco ou seis anos, a seqüência do canto produzido pelas baleias provavelmente estará inteiramente modificada. Em diferentes partes do mundo, diferentes grupos de jubartes apresentam canções específicas, e essa constitui uma das características que servem para identificar as diferentes populações da espécie.

Pelo fato das jubartes migrarem próximas à costa, a espécie se tornou um dos cetáceos mais monitorados e estudados em todo o mundo. O seu modo de vida peculiar, comportamentos, hábitos alimentares e hábitos reprodutivos pouco conhecidos, intrigam e fascinam pesquisadores e pessoas, tornando-a uma espécie extremamente interessante e ao mesmo tempo misteriosa. Atualmente, as principais ameaças enfrentadas pelos cetáceos e, consequentemente, pelas baleias-jubarte são: a poluição e destruição do hábitat, dos ecossistemas marinhos, dos mares e oceanos, a captura acidental em redes de pesca, o aumento do tráfego de embarcações, a caça, e até outras que ainda nem podemos comprovar.

Localizada no Estado do Rio de Janeiro, a região de Arraial do Cabo apresenta condições bem favoráveis ao desenvolvimento de estudos com cetáceos e, consequentemente, com baleias-jubarte. Essa região apresenta dois fatores relevantes bem importantes: uma singular projeção oceânica em relação ao litoral, tornando-a um dos pontos da costa brasileira que mais se projeta em direção ao mar, e a presença do fenômeno da ressurgência, fazendo com que ocorra o afloramento ou subida das águas frias profundas ricas em nutrientes. O fenômeno inicia-se no mês de outubro, podendo até chegar ao mês de abril, apresentando picos nos meses de janeiro e fevereiro. Durante este período, o vento predominante na região é o nordeste e sob essas condições, a temperatura pode atingir em média 16ºC à superfície. Ocorre o inverso nos meses de inverno e nos meses anteriores, mantendo-se a temperatura a níveis mais altos, atingindo além dos 24ºC. Essas características influenciam diretamente no modo de vida dos organismos locais, e definitivamente no comportamento das espécies de peixes, aves e mamíferos marinhos, como os cetáceos, que utilizam a região como área de migração (no caso das baleias de barbatana – misticetos) e/ou área de movimentos estacionais (no caso das baleias dentadas – odontocetos), como área de ocupação sazonal (em função da disponibilidade de presas) e/ou como área de residência (onde esses animais realizam as atividades relacionadas com seu ciclo de vida).

É fundamental e indispensável estimular a pesquisa, a proteção e a conservação das baleias-jubarte ao longo de suas áreas de migração, alimentação e reprodução e cria de filhotes, visando conhecer mais sua biologia, ecologia, hábitos alimentares, hábitos reprodutivos e comportamentos. Planos de ação também devem ser criados, estimulados e executados, com o objetivo de proteger esses animais tão comuns em nossas águas.

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Baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) na costa da região de Arraial do Cabo-RJ. Fotos: Marcello Costa.

Marcelo Tardelli Rodrigues

Biólogo Marinho e Fotógrafo de Natureza e Vida Selvagem

Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa de Cetáceos de Arraial do Cabo