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Os manguezais de Búzios (II)
22/07/2010Arthur Soffiati - Ecologia e História
Manguezal de “pedra”

Caminhando em direção ao centro da cidade de Búzios pela praia, confirma-se a tendência de formação de manguezais de franja. Não muito distante da foz do Una, cresceram dois belos exemplares de mangue preto, até que, mais adiante, topa-se com o que os moradores locais chamam de mangue de pedra. Antes de se alcançar a Ponta do Pai Vitório, numa praia com a areia coberta de pedras, ergue-se um belo manguezal de franja formado por mangue vermelho e branco. Cintrón e Novelli advertem que “Chapman (1940) classificou os manguezais por seu substrato, encontrando quatro tipos: (1) pedregoso, (2) arenoso, (3) pantanoso e (4) turfoso. Somente os últimos dois tipos de substrato sustentam bosques desenvolvidos. Os manguezais sobre substratos pedregosos e arenosos somente sustentam árvores de pouco porte.
Durante o processo de colonização, o manguezal pode, havendo inicialmente se estabelecido sobre um destes substratos marginais, mudar a natureza do solo fomentando a deposição de sedimentos finos e de matéria orgânica. Sobre estes sedimentos orgânicos, desenvolvem-se bosques de maior porte (...) Na região do Caribe, L. racemosa, a miúdo, coloniza praias de areia de muito pouco declive em lugares protegidos. Também coloniza a parte protegida da superfície pedregosa onde o substrato consiste de cantos lodosos ou distante de águas (...) Avicennia também tolera sedimentos com uma grande porcentagem de areia (West 1956) e frequentemente é encontrada crescendo nos dorsos de bermas de praias fósseis dentro do manguezal. Estas estruturas de maior relevo são comuns em lugares onde houve um acréscimo expressivo da costa. Estes solos arenosos são também, geralmente, bastante compactos (...) Os solos dos bosques de Rhizophora contêm geralmente maiores porcentagens de matéria orgânica que outros bosques de mangue.”
No entanto, nesse manguezal, as árvores alcançam até quatro metros de altura. É bem verdade que algumas delas, por falta de substrato, acabam caindo, mas, mesmo assim, as raízes continuam alimentando a planta, que produz propágulos para colonizar o ambiente. Mais importante é que, atrás desse manguezal, ainda existe uma significativa área de vegetação nativa pouco antropicizada. A associação dos dois ambientes leva-nos a sugerir que esta parte da costa de Búzios seja protegida por uma unidade de conservação, de preferência o previsto Parque Estadual da Costa do Sol.
Rio Trapiche

Em 1934, Hildebrando de Araujo Góes fez a seguinte anotação sobre o Rio Trapiche: “Nasce em Campos Novos, correndo a SE do Estado. Depois de um curso aproximado de 20 km., lança suas águas no Oceano, cerca de 4 quilômetros ao sul da foz do Una.”
Posteriormente, o trecho final do rio foi alargado, aprofundado e retilinizado para se transformar numa marina. Mesmo com tão pesada intervenção antrópica, é possível ainda encontrar, em alguns pontos, indivíduos isolados de mangue branco. Há, também, tocas do caranguejo chama-maré (Uca sp.) e de guaiamum (Cardisoma guanhumi), este segundo o grande indicador dos limites do manguezal.
Manguezal da Barrinha

Na praia de Manguinhos, existe um córrego de dimensões diminutas que desce dos pontos altos do promontório de Búzios e desemboca no mar. Com a urbanização, despejos de esgoto foram direcionados a ele. Em seguida, a maior parte do curso d’água foi manilhado, restando, a céu aberto, apenas um pequeno trecho do seu curso final. Este também ia ser coberto ao arrepio da lei, pois nele desenvolveu-se um manguezal com árvores altas de mangue preto e mangue branco. O autor apresentou notícia ao Ministério Público Estadual em Búzios.
Ao retornar a ele duas vezes mais, posteriormente, a execução de um projeto de paisagismo havia poupado as árvores, que agora enfeitam um restaurante perto do mercado de Búzios. Uma passarela de madeira circunda a margem esquerda do córrego, com furos circundando os troncos. Do ponto de vista estético, o projeto de paisagismo agrada, mas, do ponto de vista ecológico, apresenta problemas. O primeiro deles é que a foz do córrego está barrada por um pequeno dique de areia que impede a saída de água doce e a entrada de água salgada quando das marés altas. Assim, a dinâmica hídrica normal de um curso d’água não se processa mais como antes. O segundo é que esta barragem estabiliza a lâmina d’água do córrego. Os estudos sobre manguezais demonstram de sobejo que lâminas d’água estabilizadas levam as plantas de manguezal e associadas a situações de estresse, ainda não manifestadas no manguezal da Barrinha porque a mudança de regime hídrico é recente.
Cabe analisar a água estacionada do córrego, pois parece que ela se estagna com o lançamento de esgoto ainda existente. O motivo do barramento da foz é a criação de peixes na lâmina d’água estabilizada. Quando necessária a renovação, o restaurante promove o bombeamento de água salgada para o interior do sistema, salinizando, assim, o manguezal. Como se sabe, sal em demasia também é um fator de tensão para este ecossistema.
O órgão governamental municipal ou estadual deve exigir da empresa que se apropriou do manguezal a remoção do dique de areia para que se restabeleça a dinâmica hídrica nesse córrego, bem como a proibição do lançamento de esgoto nele. Estes são pleitos mínimos para a saúde do manguezal lá existente.

